“A reutilização da água apresenta diversos benefícios”, diz o economista Gesner de Oliveira


RICARDO IZAR

Gesner Oliveira-Divulgação

 

Os problemas ambientais e a conscientização para o uso racional dos recursos naturais ainda precisam da atenção dos gestores públicos, seja na área de preservação, saneamento e até mesmo para a gestão hídrica dos municípios e estados. Para falar de métodos para preservação e para o reúso da água, a Revista Prefeitos&Governantes conversou com Gesner de Oliveira, Doutor em Economia pela Universidade da Califórnia (EUA), professor da FGV, ex-presidente da Sabesp (de 2007 a 2010) e atualmente trabalha na GO Associados como consultor de negócios. Confira a entrevista abaixo:

Revista Prefeitos&Governantes: Muito se fala da falta de água, da seca histórica, da falta de infraestrutura, mas e a situação do desmatamento da Mata Atlântica e da Amazônia? Além disso, a proteção das várzeas dos mananciais das zonas urbanas também não é importante?

Gesner de Oliveira: Há teorias de cientistas renomados que relacionam o desmatamento na Amazônia com o regime de chuvas no Sudeste. Esse é um modelo que ainda precisa ser abordado. Uma coisa é certa: não devemos subestimar a abrangência e os danos decorrentes do desmatamento. Dados da Fundação SOS Mata Atlântica e do INPE mostram a urgência de combater esta consequência da ação humana:  foi constatado desmatamento de 18.267 hectares (ha), ou 183 Km², de remanescentes florestais nos 17 Estados da Mata Atlântica no período de 2013 a 2014, o que equivale a 18 mil campos de futebol.

Considerando que, em comparação com o período anterior (2012-2013), houve uma queda de 24% não diminui a gravidade do quadro e a necessidade de tratarmos a questão com urgência. É sabido que o desmatamento está diretamente relacionado com outros fenômenos, como a falta de chuva: desmatamentos às margens dos rios contribuem para que estes sequem. E há áreas onde os lençóis freáticos foram tão sobrecarregados que elas agora correm risco de se tornarem desérticas.

Revista Prefeitos&Governantes: Agora em março a Sabesp criou duas estações de produção de água de reuso. Uma das estações levará a água para a represa Guarapiranga e a outra para o sistema Baixo Cotia. A criação dessas estações é viável em relação a custo e tempo de construção?

Gesner de Oliveira: A iniciativa da Sabesp é importante, tendo-se em vista que reúso e conservação se tornaram palavras-chave em termos de gestão em regiões com baixa disponibilidade ou insuficiência de recursos hídricos. Há uma gama significativa de aplicações potenciais: irrigação de parques e jardins públicos, lavagens de máquinas e equipamentos, recarga artificial de aquíferos, entre outros.

As duas estações de produção de água de reúso vão produzir 3.000 litros por segundo, que serão lançados nas represas Guarapiranga e Isolina – esta pertencente ao Sistema Baixo Cotia – aumentando o volume de água armazenada dos reservatórios. É natural que projetos dessa natureza envolvam investimentos e custos adicionais, porém o reúso de água é uma alternativa segura, efetiva, sustentável e que possui um retorno positivo a longo prazo.

  • Estação Produtora de Água de Reúso (EPAR) para reforço do Sistema Produtor Guarapiranga
    • Vazão: 2,0 m³/s
    • Valor: R$ 250 milhões
    • Prazo de execução: 12 meses

 

  • Estação Produtora de Água de Reúso (EPAR) para reforço do Sistema Produtor Baixo Cotia
    • Vazão: 1,0 m³/s
    • Valor: R$ 275 milhões
    • Prazo de execução: 18 meses

Revista Prefeitos&Governantes: A água de reúso é a melhor solução para o Brasil não ter mais problemas com a falta de água? E esse método pode ser estendido para as regiões semiáridas do país?

Gesner de Oliveira: A crise é, ao mesmo tempo, um problema e uma oportunidade para revermos o que está sendo feito. Não há uma resposta simples, mas sim um conjunto de ações possíveis. Eu diria que uma agenda para o enfrentamento futuro de crises deve estar pautada nos seguintes aspectos.

I – Dessalinização como um seguro hídrico;

II – Redução constante e obsessiva de perdas, inclusive por meio de parcerias público-privadas;

III – Redimensionamento de reservatórios;

IV – Programas constantes de uso racional da água e consumo consciente;

V – Fiscalização e monitoramento das captações superficiais e de poços;

VI – Igualmente importante como os outros itens, a substituição de água potável por água de reuso nas ocasiões em que a utilização de água potável seja desnecessária.

A reutilização da água apresenta diversos benefícios: por um lado, contribui para a diminuição da quantidade de água captada em mananciais destinados ao abastecimento e, por outro, atua na diminuição dos riscos e custos associados à busca por novos mananciais. Além de ser uma alternativa efetiva para promover a racionalidade no uso da água potável, o reuso da água corrobora com a diretriz adotada pelo Conselho Econômico e Social da Organização das Nações Unidas – ONU, segundo a qual nenhuma água de boa qualidade deverá ser utilizada em atividades que tolerem águas de qualidade inferior, a não ser que haja grande disponibilidade. O Brasil possui diversos casos de reutilização da água, e inclusive é sede do maior projeto para produção de água de reuso industrial na América do Sul.

Revista Prefeitos&Governantes: Há tecnologias vizinhas que o Brasil pode se inspirar?

Gesner de Oliveira: Há casos dignos de inspiração dentro do próprio Brasil. É o caso do Projeto Aquapolo Ambiental, o maior empreendimento para a produção de água de reúso industrial na América do Sul. O Aquapolo tem capacidade para produzir 1m³/s de água de reuso a partir da ETE ABC da Sabesp. Isso equivale ao abastecimento de uma cidade de 500 mil habitantes, como Santos.

Outros exemplos de reutilização de água são:

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Revista Prefeitos&Governantes: Apesar de medidas mais imediatas que estão sendo tomadas atualmente, o Brasil não necessita começar a se preocupar com medidas a longo prazo?

Gesner de Oliveira: O resultado desta crise dependerá de como ela será tratada: pontualmente ou com mudanças estruturais, de longo prazo. No caso da água, podemos incorrer no erro de realizarmos obras para o aumento da oferta de água, com novos sistemas cada vez mais caros. Essas obras, apesar de necessárias, devem ser acompanhadas por uma mudança estrutural na forma de lidar com a água, incentivando o reúso onde for possível, além do estímulo à captação de agua das chuvas, diminuição de perdas, a fim de garantir que a superação da crise seja sustentável, e não temporária. Neste sentido, é importante incorporarmos o conceito de “seguro hídrico”, projetando alternativas que possam ser acionadas em novas situações excepcionais e trabalhando em prol de uma gestão de água que iniba riscos na disponibilidade do recurso hídrico.

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