A CRISE HÍDRICA EM SÃO PAULO AINDA ESTÁ LONGE DO FIM

“Há 15 anos, já se alertava para o risco de um colapso no Sistema Cantareira, mesmo assim, nada foi feito”, afirma o engenheiro e professor Júlio Cerqueira César     

Por Flaviana Costa

1Prof. Júlio Cerqueira César

   A crise hídrica que atinge o Sudeste brasileiro ainda está longe de ser solucionada. E São Paulo, o estado mais desenvolvido do país, também é o mais afetado pela falta de água. A tendência é que a crise hídrica se estenda por muito mais tempo do que dizem as autoridades.

Mais absurdo do que vivenciar a seca em São Paulo é saber que, há 15 anos, muitos estudiosos já alertavam às autoridades competentes para o risco de um colapso no Sistema Cantareira, mesmo assim, nada foi feito. A afirmação vem do engenheiro e professor aposentado da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP), Júlio Cerqueira César Neto, que centralizou toda sua vida profissional no campo de Engenharia Hidráulica, Sanitária e Ambiental.

 

Na opinião do prof. Júlio Cerqueira César, quando o Sistema Cantareira foi criado, em meados de 1960, de fato representou um avanço excepcional para o abastecimento da Região Metropolitana de São Paulo. “No entanto, depois que o Cantareira foi criado, obviamente, a população de São Paulo continuou crescendo de forma rápida e desordenada. Quando chegamos ao ano 2000, acabou o saldo de água do Sistema Cantareira, então, a produção de água passou a ser igual à demanda. Ou seja, do ano 2000 para cá, o Cantareira só ficou no vermelho”, aponta.

 

De acordo com o prof. Júlio César, naquela época [há 15 anos], a sociedade civil e uma série de organizações fizeram diversos estudos que constataram a defasagem do Sistema Cantareira, era preciso construir um novo sistema de abastecimento para acompanhar o crescimento da população da região metropolitana paulista. “Então, há 15 anos, já estava constatada a necessidade de um novo sistema de abastecimento de água. E se, naquela época, o governo tivesse feito investimentos em outro manancial de grande porte, hoje esse outro sistema estaria em operação e nós estaríamos enfrentando essa escassez de chuvas sem grandes transtornos”, afirma.

 

Segundo ele, se o sistema de abastecimento de água de São Paulo estivesse em dia com seus mananciais, teria condições de enfrentar essa falta de chuvas sem causar grandes transtornos para população. “Nós estamos enfrentando essa crise hídrica porque o sistema de abastecimento de São Paulo há muito tempo estava completamente deficitário e por isso não teve condições de enfrentar a crise”, declara.

 

Na opinião do professor, o governo de São Paulo deixou que a situação chegasse ao ponto em que chegou. “Há 15 anos foi constatada a necessidade de construção de um novo sistema de abastecimento para São Paulo, mas nada foi feito porque faltou vontade política para fazê-lo. A crise hídrica estourou há mais de 1 ano e até agora nenhuma providência foi tomada porque o governo continua sem nenhuma vontade política para solucionar a questão do abastecimento de água em São Paulo”, aponta.

 

 

VALE DO RIBEIRA

 

De acordo com o prof. Júlio César, a Região Metropolita de São Paulo dispõe sim de água em abundância e de boa qualidade. “Nós temos a Bacia do Ribeira de Iguape e a Bacia do Paranapanema, ambas têm uma quantidade de água, de excelente qualidade, mais do que suficiente para abastecer a Região Metropolitana de São Paulo”, afirma.

 

Segundo o professor, só o Vale do Ribeira dispõe de uma quantidade de água de aproximadamente 520 metros cúbicos por segundo, isso tudo de água de boa qualidade vai para o oceano todo dia porque não é utilizada. “Se toda essa água fosse capitada, daria para abastecer quase que o Brasil inteiro. Já existem projetos para tirar água do Ribeira, projetos para tirar água do Paranapanema, mas ainda não saíram do papel”, ressalta.

 

Para ele, se o governo quisesse, já teria resolvido o problema do abastecimento de água em São Paulo. “Se o governo tivesse vontade política para resolver essa questão, já teria feito uma obra para capitação de água no Vale do Ribeira ou no Vale do Paranapanema, e hoje nós estaríamos numa situação relativamente confortável, mesmo num momento de estiagem como o atual”, declara.

 

 

ÁGUA DE REÚSO

 

Na análise do prof. Júlio César, o reúso da água só deve ser adotado em lugares onde realmente não existe água, o que não seria o caso de São Paulo se o governo tivesse tomado as providências necessárias. “Se estivéssemos numa situação normal, sem crise, eu diria que nós não precisamos utilizar água de reúso. Porém, como o governo deixou a crise hídrica se instalar em São Paulo, será necessário fazer algum reúso de água para suprir essa deficiência de maneira mais rápida. No entanto, esta deve ser apenas uma solução imediata”, ressalta.

 

O professor faz um alerta para o resto da crise que ainda temos pela frente, com racionamento de água pelos próximos 3 ou 4 anos. “É preciso que seja feita uma obra de capitação de água no Vale do Ribeira, ou no Vale do Paranapanema. Com soluções técnicas simples, esta obra poderá retirar a quantidade de água necessária para abastecer a Região Metropolitana de São Paulo. Porém, esse tipo de obra demanda tempo para construção. Por isso, o reúso de água deveria ser implementado apenas como uma solução imediata, enquanto um novo sistema de abastecimento fosse construído no Vale do Ribeira, ou do Paranapanema”, aponta.

 

No entanto, o professor faz uma ressalva quanto à utilização de água de reúso. Segundo ele, a tecnologia que transforma esgoto em água limpa, pura, adequada para o consumo humano é um sistema sofisticado e caro, e o Brasil não está preparado para operar esse tipo de tecnologia. “Para utilizarmos esse sistema, nós teremos que importar a tecnologia e os técnicos habilitados para operar esse sistema. Isso porque, numa ação dessas, não se pode admitir erro. Um único erro poderá causar um desastre na saúde pública”, alerta.

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